Como é a vida de uma pessoa de quem lhe é tirado tudo o que tem (menos o orgulho de estar certo quando todos à sua volta não estão)? Essa é a história de José María, o protagonista de “Se houvesse um homem justo na cidade”, um professor universitário venezuelano que assiste à decadência de seu país após Hugo Chávez tomar o poder, e que termina refugiado no Brasil, juntamente com outros compatriotas.
À parte a descrição do drama político e social, em que a dignidade das pessoas vai sendo minguada pouco a pouco em razão da crescente miséria no país, o livro toca o leitor por apresentar os dramas internos do protagonista, que vive entre a tensão de saber desde o início as prováveis consequências do regime que se instaurou na Venezuela; as expectativas de mudança e a consequente desilusão; o descrédito de seu irmão - chavista convicto - quanto às suas ideias; e sua inação. De fato, mesmo tendo sofrido perseguição política no início, por suas posições contrárias ao regime, José Maria permanece na Venezuela, experimentando essa “degradação a conta-gotas” até se tornar literalmente insustentável.
Ao mesmo tempo, pode-se observar ao longo da história que nada dobra o seu orgulho: a perda do emprego, do lar, dos meios de subsistência, nem a fome ou a morte de seu irmão, ou mesmo o exílio a que se vê impelido ao final. Tudo o que envolve esses problemas é encarado como uma grande humilhação, não por se tratar de algo degradante para qualquer ser humano, mas principalmente porque José Maria considera-se de alguma forma superior - por se considerar mais “consciente” de tudo o que estava acontecendo, parece que se considera também menos merecedor daquilo. Inclusive, em alguns momentos chega a dar a impressão de que ele segue aguentando até o extremo a situação no país apenas para ter o gosto de dizer que estava certo.
É claro que, em suas reflexões, há diversos momentos em que a dor da realidade grita de modo que não se consegue ignorar, e José María se compadece. Ele mesmo, porém, assume que esses sentimentos não perduram dentro de si como deveriam. Num cenário de tamanha desesperança, apenas quando José María encontra-se verdadeiramente com o transcendente e aceita que o conhecimento ou a cultura que possui não lhe torna superior ou mais dono de si que os demais venezuelanos (ou que qualquer pessoa), consegue olhar além da miséria à sua volta, enxergar as pessoas de fato. Assim, pode encaixar finalmente as peças de sua vida que pareciam sem lugar.