quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Resenha: Se houvesse um homem justo na cidade

Como é a vida de uma pessoa de quem lhe é tirado tudo o que tem (menos o orgulho de estar certo quando todos à sua volta não estão)? Essa é a história de José María, o protagonista de “Se houvesse um homem justo na cidade”, um professor universitário venezuelano que assiste à decadência de seu país após Hugo Chávez tomar o poder, e que termina refugiado no Brasil, juntamente com outros compatriotas. 

À parte a descrição do drama político e social, em que a dignidade das pessoas vai sendo minguada pouco a pouco em razão da crescente miséria no país, o livro toca o leitor por apresentar os dramas internos do protagonista, que vive entre a tensão de saber desde o início as prováveis consequências do regime que se instaurou na Venezuela; as expectativas de mudança e a consequente desilusão; o descrédito de seu irmão - chavista convicto - quanto às suas ideias; e sua inação. De fato, mesmo tendo sofrido perseguição política no início, por suas posições contrárias ao regime, José Maria permanece na Venezuela, experimentando essa “degradação a conta-gotas” até se tornar literalmente insustentável.

Ao mesmo tempo, pode-se observar ao longo da história que nada dobra o seu orgulho: a perda do emprego, do lar, dos meios de subsistência, nem a fome ou a morte de seu irmão, ou mesmo o exílio a que se vê impelido ao final. Tudo o que envolve esses problemas é encarado como uma grande humilhação, não por se tratar de algo degradante para qualquer ser humano, mas principalmente porque José Maria considera-se de alguma forma superior - por se considerar mais “consciente” de tudo o que estava acontecendo, parece que se considera também menos merecedor daquilo. Inclusive, em alguns momentos chega a dar a impressão de que ele segue aguentando até o extremo a situação no país apenas para ter o gosto de dizer que estava certo. 

É claro que, em suas reflexões, há diversos momentos em que a dor da realidade grita de modo que não se consegue ignorar, e José María se compadece. Ele mesmo, porém, assume que esses sentimentos não perduram dentro de si como deveriam. Num cenário de tamanha desesperança, apenas quando José María encontra-se verdadeiramente com o transcendente e aceita que o conhecimento ou a cultura que possui não lhe torna superior ou mais dono de si que os demais venezuelanos (ou que qualquer pessoa), consegue olhar além da miséria à sua volta, enxergar as pessoas de fato. Assim, pode encaixar finalmente as peças de sua vida que pareciam sem lugar.


Se houvesse um homem justo na cidade
Diogo Fontana
Editora Danúbio
2022
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