quinta-feira, 26 de março de 2026

Resenha: O Albatroz e Diálogo das Carmelitas



Resolvi começar o ano com o propósito de ler alguns dos livros que andei comprando/ganhando nos últimos anos e que ainda estavam esperando na prateleira. Assim, separei O Albatroz, de José Geraldo Vieira, para levar para a praia. Estava com uma expectativa muito positiva do livro, já que gostei muito d'A Ladeira da Memória (escrevi sobre esse livro aqui), também dele. Acabei pegando para ler, na sequência, o Diálogo das Carmelitas, de Georges Bernanos (de quem eu também já tinha lido, no ano passado, Diário de um Pároco de Aldeia, e gostado muito) - nem acreditei que a leitura nas férias rendeu tanto!

Uma das coisas de que gostei no José Geraldo Vieira - me dei conta nessas férias - é que as histórias que ele conta e a forma como conta me lembram muito do meu avô, que também gostava de contar muitas histórias sobre quando era jovem e sobre a época em que viveram seus pais. De certa forma, a experiência de ler José Geraldo Vieira para mim se parece com ouvir meu avô contando uma de suas histórias antigas de Porto Alegre - só que, no caso dos livros que li, as histórias são do Rio de Janeiro. As obras nos transportam para um tempo e um lugar que, em que pese estejam no passado, não estão tão distantes da gente, de modo que, sob certo aspecto, ficam com essa cara de uma história do avô, do bisavô, de alguém de uma geração anterior da família que ainda pode estar aqui para nos contar o que aconteceu.

Por outro lado, o cenário tão "próximo", particular, ganha amplitude universal, por abarcar grandes temas do ser humano. Em O Albatroz, os personagens, especialmente a protagonista Virgínia, passam tentando fugir de um destino inexorável (quase mitológico) que se abate sobre a família. A tragédia, afinal, acaba sendo tratada com resignação, mas não sem certa perplexidade, pelas mulheres que perdem seus familiares em razão das guerras e conflitos que vão ocorrendo ao longo do tempo, dentro e fora do país. O livro traz uma ideia muito forte da aceitação do destino e de resignação, mas sem esperança. O sofrimento pela perda precoce dos homens da família é visto como um fardo que deve ser carregado e do qual não se pode escapar, e para o qual não há respostas, apenas a imensidão muda do mar.

Já no Diálogo das Carmelitas, peça escrita a partir de um episódio real, o que se vê é a história das freiras carmelitas de um mosteiro de Compiégne em face do avanço das perseguições às religiosas durante a Revolução Francesa. As personagens apresentam, diante da perspectiva de perder a liberdade de viver sua vocação (e mesmo de perder a própria vida), altivez, medo, insegurança, revolta, pragmatismo, orgulho, bom humor, compreensão, desânimo, honra, piedade, senso de dever, e tudo dentro de um tempo e espaço limitados, o que, em certos momentos, aguça ainda mais cada um desses sentimentos e atitudes. Ao final, vemos uma aceitação de um destino inexorável e injusto, como o que acontece também em O Albatroz - mas com uma luz de esperança. As personagens, com todas as suas limitações e dilemas, acabam por enfrentar o problema de cabeça erguida, não pelo mero orgulho de enfrentá-lo, mas sim pela consciência de estar transformando a aceitação do destino trágico em algo glorioso não para si, mas para Deus.

Foi muito oportuno poder ter lido uma obra imediatamente depois da outra, embora o critério de seleção tenha sido o acaso (ou o atraso nas leituras mesmo!). São dois livros muito bons, com perspectivas distintas sobre um mesmo tema. Perceber como se dá o enfrentamento de sofrimentos inevitáveis através das histórias das personagens nos enriquece e faz pensar como estamos nós enfrentando as nossas...


O Albatroz
José Geraldo Vieira
Editora Sétimo Selo

Diálogo das Carmelitas
Georges Bernanos
Editora Sétimo Selo
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