Desbravar o interior de si mesmo, através da memória daquilo que se viveu, para dali enxergar um caminho para prosseguir. É esse o percurso que José Geraldo Vieira nos convida a fazer juntamente com Jorge, o protagonista de A Ladeira da Memória.
Um livro cheio de imagens, de música, lugares, cores, referências (nem sempre fáceis de entender) a autores, compositores, livros, que faz o leitor passear por um Rio de Janeiro que hoje vive apenas na memória de quem pôde conhecê-lo, enquanto acompanha a história de amor de Jorge e Renata. Um relacionamento de alma a alma, um querer bem verdadeiro, mas que não consegue se realizar plenamente devido a um grande obstáculo: Renata é casada, e vive o dilema de honrar o sacramento e o compromisso já assumido e, ao mesmo tempo, seguir compartilhando seu mundo interior, suas ideias, seus pensamentos, sua vida, na extensão do possível, com Jorge.
Conforme a história se desenvolve, as memórias evocadas por Jorge nos vão conduzindo para um redemoinho de dor e saudade, uma evocação doída do que foi e - talvez ainda mais doída - do que não foi vivido entre os personagens, um tormento interior e solitário que é vivido tendo como pano de fundo ainda a Segunda Guerra Mundial. O relacionamento dos protagonistas é atravessado pela grave e triste notícia da doença fatal, amplificada pela distância física, ao mesmo tempo em que as vitórias e reveses da guerra impactam, em maior ou menor medida, mesmo países mais distantes como o Brasil. A verdadeira batalha, contudo, é a interior: diante da desolação, subir a ladeira da memória torna-se para Jorge o único meio de ressignificar, transfigurar o seu passado, rendendo-lhe a devida homenagem, permitindo que a água do pranto lave a alma e se converta em fonte, em elemento vivo e vivificante, pleno de esperança.
José Geraldo Vieira
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