terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Resenha: O Homem Eterno

Ler Chesterton é ter a certeza de encontrar imagens inusitadas, mas certeiras, para expressar grandes ideias. Não é diferente em O Homem Eterno, obra em que o autor traça um panorama da história do homem e da Igreja, com o objetivo de descrever e explicitar toda a singularidade de nossa existência no mundo, e a singularidade do cristianismo em relação às demais visões do homem sobre a origem e o sentido da vida que se desenvolveram ao longo dos séculos. 

Em uma resposta aos críticos de seu tempo, Chesterton compara diferentes visões sobre o homem e a fé, mostrando que, além da singularidade do seu início - do “Deus nas cavernas” em Belém, frágil e pequeno, em uma lógica que é loucura e insensatez para o mundo, como já dizia o apóstolo -, a Igreja de Cristo preserva ao longo do tempo seus princípios e valores, apesar das inúmeras tentativas de reinterpretação e de destruição por que passou. Trata-se de algo realmente singular, uma chave capaz de abrir a única porta que importa: a da eternidade. Mais que isso, o cristianismo é uma “coisa viva”, porque é capaz de ir contra a corrente sem se deixar arrastar por ela; e, ao ir contra a corrente, reencontra as suas origens, o seu frescor inicial, os seus valores e doutrinas fundamentais; de fato, reencontra o seu Deus, e assim renasce, pois Ele sabe o caminho para fora do sepulcro.


O Homem Eterno
G.K. Chesterton
Editora Ecclesiae
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sábado, 31 de janeiro de 2026

Resenha: A ladeira da memória

Desbravar o interior de si mesmo, através da memória daquilo que se viveu, para dali enxergar um caminho para prosseguir. É esse o percurso que José Geraldo Vieira nos convida a fazer juntamente com Jorge, o protagonista de A Ladeira da Memória. 

Um livro cheio de imagens, de música, lugares, cores, referências (nem sempre fáceis de entender) a autores, compositores, livros, que faz o leitor passear por um Rio de Janeiro que hoje vive apenas na memória de quem pôde conhecê-lo, enquanto acompanha a história de amor de Jorge e Renata. Um relacionamento de alma a alma, um querer bem verdadeiro, mas que não consegue se realizar plenamente devido a um grande obstáculo: Renata é casada, e vive o dilema de honrar o sacramento e o compromisso já assumido e, ao mesmo tempo, seguir compartilhando seu mundo interior, suas ideias, seus pensamentos, sua vida, na extensão do possível, com Jorge. 

Conforme a história se desenvolve, as memórias evocadas por Jorge nos vão conduzindo para um redemoinho de dor e saudade, uma evocação doída do que foi e - talvez ainda mais doída - do que não foi vivido entre os personagens, um tormento interior e solitário que é vivido tendo como pano de fundo ainda a Segunda Guerra Mundial. O relacionamento dos protagonistas é atravessado pela grave e triste notícia da doença fatal, amplificada pela distância física, ao mesmo tempo em que as vitórias e reveses da guerra impactam, em maior ou menor medida, mesmo países mais distantes como o Brasil. A verdadeira batalha, contudo, é a interior: diante da desolação, subir a ladeira da memória torna-se para Jorge o único meio de ressignificar, transfigurar o seu passado, rendendo-lhe a devida homenagem, permitindo que a água do pranto lave a alma e se converta em fonte, em elemento vivo e vivificante, pleno de esperança.


A ladeira da memória
José Geraldo Vieira
Editora Sétimo Selo
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Resenha: Se houvesse um homem justo na cidade

Como é a vida de uma pessoa de quem lhe é tirado tudo o que tem (menos o orgulho de estar certo quando todos à sua volta não estão)? Essa é a história de José María, o protagonista de “Se houvesse um homem justo na cidade”, um professor universitário venezuelano que assiste à decadência de seu país após Hugo Chávez tomar o poder, e que termina refugiado no Brasil, juntamente com outros compatriotas. 

À parte a descrição do drama político e social, em que a dignidade das pessoas vai sendo minguada pouco a pouco em razão da crescente miséria no país, o livro toca o leitor por apresentar os dramas internos do protagonista, que vive entre a tensão de saber desde o início as prováveis consequências do regime que se instaurou na Venezuela; as expectativas de mudança e a consequente desilusão; o descrédito de seu irmão - chavista convicto - quanto às suas ideias; e sua inação. De fato, mesmo tendo sofrido perseguição política no início, por suas posições contrárias ao regime, José Maria permanece na Venezuela, experimentando essa “degradação a conta-gotas” até se tornar literalmente insustentável.

Ao mesmo tempo, pode-se observar ao longo da história que nada dobra o seu orgulho: a perda do emprego, do lar, dos meios de subsistência, nem a fome ou a morte de seu irmão, ou mesmo o exílio a que se vê impelido ao final. Tudo o que envolve esses problemas é encarado como uma grande humilhação, não por se tratar de algo degradante para qualquer ser humano, mas principalmente porque José Maria considera-se de alguma forma superior - por se considerar mais “consciente” de tudo o que estava acontecendo, parece que se considera também menos merecedor daquilo. Inclusive, em alguns momentos chega a dar a impressão de que ele segue aguentando até o extremo a situação no país apenas para ter o gosto de dizer que estava certo. 

É claro que, em suas reflexões, há diversos momentos em que a dor da realidade grita de modo que não se consegue ignorar, e José María se compadece. Ele mesmo, porém, assume que esses sentimentos não perduram dentro de si como deveriam. Num cenário de tamanha desesperança, apenas quando José María encontra-se verdadeiramente com o transcendente e aceita que o conhecimento ou a cultura que possui não lhe torna superior ou mais dono de si que os demais venezuelanos (ou que qualquer pessoa), consegue olhar além da miséria à sua volta, enxergar as pessoas de fato. Assim, pode encaixar finalmente as peças de sua vida que pareciam sem lugar.


Se houvesse um homem justo na cidade
Diogo Fontana
Editora Danúbio
2022
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